Entre trangressões, resistência e literatura
Friday, December 16th, 2011Por Fernando de F. L . Torres,
Não é incomum que eu escreva neste espaço para comentar posts de outros escritores ou notícias sobre literatura. Hoje não é diferente. Escrevo para comentar o texto da Carol Bensimon “A Maior das Transgressões”, publicado no Blog da Companhia das Letras.
A Carol é autora de dois livros que gosto muito: “Pó de Parede” (Não Editora) e “Sinuca embaixo d’água” (Cia. das Letras). São livros bem escritos e de impecável técnica literária. Fica claro que a escritora tem uma relação de amor à literatura. Encontrei-a duas vezes aqui em São Paulo, uma vez no lançamento de seu livro e outra em um evento literário. Não conversamos muito.
Por essas e outras acompanho o que ela escreve no Blog da editora que a publica com relativa atenção. (Nem todos autores que ali escrevem me chamam a atenção, o que é natural.) E achei esse seu último texto muito bonito. É uma declaração de amor a uma causa, embora eu não concorde inteiramente com suas premissas.
A Carol fala que literatura é trangressão e faz a crítica aos valores estabelecidos. Minha visão é ligeralmente diferente, para mim a literatura é resistência, pois estimula a reflexão em uma sociedade cujo valor é a alienação. Acho que isso decorre de uma premissa diversa que tenho. Ela coloca como se se nossa geração estivesse em um processo de superficialização e alienação. Não concordo. Na geração de meus pais, a maioria dos jovens não liam, não tinham posição política clara, ou mesmo, eram favoráveis ao hediondo regime militar. A maioria dos jovens da geração de meus pais não foi presa. Nem todo jovem daquela geração era hippie, poucos entendiam ou sabiam o que era contra-cultura.
Nós cultuamos uma ilusão. Assim como o Flaneur do romantismo, assim como qualquer tipologia de artista que podemos conceber ou lembrar é um tipo marginalizado. A Paris de Hemmingway, Picasso, Capa, Dali etc. não é necessariamente a Paris daquela época. Aliás, tomamos o registro da vida de um grupo como se fosse a vida de todos. Escrever, consciênte do papel do escritor na sociedade, é resistência pois este, em vida, é relegado ao papel marginal.
E olhando assim, me vejo ainda mais romântico que a própria Carol. O papel do escritor como seu próprio herói, deslocado da sociedade ou de si mesmo. E paradoxalmente, quanto mais escrevo me afasto e me aproximo deste herói. Salvo minha vida, mas me condeno ao exílio. Por amor? Sim. Não pela literatura, mas pelo paradoxo.





