Reutilização de espaços e memória
Monday, February 8th, 2010Criaram uma biblioteca onde foi o Carandirú. Uma biblioteca descolada. O DOI-CODI hoje é um museu. Reinstalaram o portal de Auschwitz com a inscrição “O trabalho liberta”, ali colocada pela primeira vez pelos nazistas.
Eu não preciso ressaltar, mas faço por amor à oratória, que a sede DOI-CODI e a Casa de Detenção do Carandirú são, dentro proporções de gigantesca diferença, locais vergonhosos o suficientes para serem considerado nossa Auschwitz.
Dizem, que quando o primeiro general (ou outro oficial de alta patente) entrou no mais famoso campo de concentração nazista, ele deu ordens expressas para que absolutamente nada fosse destruído, bem como ordenou que cada soldado com uma câmera registrasse os horrores encontrados.
Da mesma forma o escritor Italiano (e judeu) Primo Levi, que foi prisioneiro em tal lugar, dedicou quase que toda sua produção e relembrar os horrores vividos ali.
Esses dois fatos relembram a necessidade de cuidarmos da história, por mais dura que ela seja, para rememorarmos nossos erros, nossas omissões, nossa capacidade humana de executar atos horrendos, para a partir dessa memória, possamos evitar sua repetição. Dizem que ao ordenar o genocído dos judeus, Adolf Hitler citou o descaso histórico com o genocídio armênio. Precisamos preservar nossos horrores, rememora-los para não repeti-los. E exatamente por isso reinstalaram a inscrição que havia sido furtada. Exatamente por isso que Auschwitz está preservada.
Quando propuseram um Museu onde um dia foi o DOI-CODI, lugar que foi relatado como sede de torturas e assassinatos, foi tomada uma decisão corajosa: preservariam ali a memória vergonhosa dos anos de chumbo de nossa ditadura. As celas dos porões não mentem, a arte ali instalada é intrusa, como se essa fosse a resposta possível que podemos dar. Deixando claro que a instalação é uma resposta à vergonha que representa o lugar.
Por fim temos o Carandirú. Nossa Auschwitz, nossa Guantánamo. Local em que cada um dos Direitos Humanos foi rasgados reiteradamente. Palco do massacre de 111 presos (números oficiais) e tantas outras execuções extraoficiais.
Temos vergonha do Carandirú e por isso foi construído o Parque do Povo. Queremos esquecer o Carandirú e por isso se construiu ali uma biblioteca “descolada”. Parece que querem apagar a história e para agradar a intelectualidade, fizeram ali uma biblioteca. Um local agradável que não nos lembrará jamais de um presídio.
A história continua sendo escrita pelos vencedores, e nesse caso, eles querem esquecer.


Por Yule Barbosa

O livro que se segue “Radio cidade Perdida” é uma história de personagens marginalizados pela guerra civil e por um regime ditatorial. O País não tem nome, é a américa latina em sentido amplo. As histórias de opressão e resistência que permeiam o romance são comuns a todos os países que viveram regimes ditatoriais na segunda metade do século XX. O país sem nome alí tratado pode ser lido como se fosse, inclusive, o Brasil. “Rádio Cidade Perdida” é um 1984 sulamericamo, e nos veste com mais perfeição que a visão anglosaxã de Orwell.

É sabido que eu admiro muito o trabalho da
A Virgem que não conhecia Picasso é o livro mais fraco editado pela Não Editora que li até agora. Perdoe-me o autor, Rodrigo Rosp, com quem já estive à mesa uma vez. Mas A Virgem… é um livro que destoa na linha editorial que ele mesmo impôs à casa que é sócio.

