A minha literatura com sacanagem, por favor!

Thursday, May 28th, 2009

Nas útimas semanas a Secretaria de Educação de São Paulo recolheu o livro “Dez na área, um na banheira e ninguem no gol” que foram distribuidos para crianças do quarto ano (algo como a terceira série do meu tempo, portanto para crianças de 9 anos) e de repente fomos tomados  por um surto de pudor.

Hoje recebo em meu email a mala direta do Blog de Beatriz Vieira, dizendo que crianças do ensino médio receberam o “inadequado” livro de Cristovão Tezza “Aventuras Provisórias”. Seu comentário pessoal é de estupefação e revolta.

Primeira coisa, tal livro do premiadíssimo Cristovão Tezza é um baita livro, imagino que se algum estudante leu, se divertiu muito. Como eu me diverti com “Feliz Ano Velho” e “Capitães de Areia”, nos meus tempos colegiais.

Com a devida vênia, cara Beatriz, alunos do chamado Ensino Médio (colegial, segundo grau…) não são crianças como a que você coloca na foto de seu site (aquele belo anjinho de não mais de 5 anos).  Com 16 anos somos relativamente capazes segundo a legislação brasileira, podendo, com autorização de nossos pais, casar-nos inclusive.

O que você sugere? Que escondamos de nossas “crianças” de 16 anos toda obra literária com sexo ou palavrão? Para começar, então, cortem os Lusiadas das listas. Depois, com uma régua faça um traço em toda obra de Jorge Amado. Grande Sertão, nem pensar! É Estória de amor homossexual. Machado é um pornógrafo, pois sensualidade permeia cada palavra de “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas”, ai ai ai… aquela Capitú, dissimulada, ou Eugênia! Porque bela se coxa, por que coxa se bela? E Macunaíma? A nossa ode tragicômica do povo brasileiro? Tranquem-na no alto da torre!

O que sobra? Talvez aquela chatice assexuada do Peri e Ceci em “O Guarani”, se muito. Não subestime nossos jovens, eles tem capacidade de ler um livro como “Aventuras Provisórias”, assim como você tinha na idade deles. Não jogue no mesmo balaio o equivoco de São Paulo com esta atitude hipócrita da Secretaria de Educação de Santa Catarina.

Atualização de 29/05/09: Sérgio Rodrigues escreveu um bom post sobre o tema no Todoprosa.

11 Responses to “A minha literatura com sacanagem, por favor!”

  1. Caro Fernando,

    A minha intenção é de discutirmos exatamente como devemos classificar um livro na questão faixa etária. Quais são os criterios? Sociais, psicológicos, culturais??
    Essa é minha intenção: discutir para evoluir. Acho que diferente da sua intenção.
    Saudações literárias.
    Beatriz Vieira

  2. Realmente discutir para evoluir não é minha intenção.

    O que busco é a divulgação da cultura como forma democratizar informação e conhecimento. Eu vejo na arte, principalmente na literatura, uma capacidade de capacitação de seres críticos e independentes.

    Por outro lado vejo que a classificação etária para estudantes do Ensino Médio é reducionista e autoritária, uma vez que sempre representará uma posição de exercício de superioridade de adultos sobre aqueles que já podem ser tratados de forma igualitária.

  3. Me fez lembrar: Porque ler os clássicos, de Ítalo Calvino:
    “De fato, as leituras da juventude podem ser pouco profícuas pela impaciência, distração, inexperiência das instruções para o uso, inexperiência da vida. Podem ser (talvez ao mesmo tempo) formativas no sentido de que dão uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, recipientes, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza: todas, coisas que continuam a valer mesmo que nos recordemos pouco ou nada do livro lido na juventude. Relendo o livro na idade madura, acontece reencontrar aquelas constantes que já fazem parte de nossos mecanismos interiores e cuja origem havíamos esquecido. Existe uma força particular da obra que consegue fazer-se esquecer enquanto tal, mas que deixa sua semente.”

  4. Aposto que o Italo Calvino leu Decameron em sua tenra idade. Adolescente irão fazer sexo lendo ou não um livro que isso apareça. É uma questão biológica.

  5. Eu realmente acho que parte dos professores e com certeza a Secretaria de Educação (dos dois estados e do resto do país) não tem consciência ou critérios relevantes na hora de sugerir ou censurar livros aos alunos, sejam crianças, sejam adolescentes.

    Existem pontos importantes que são ignorados por aqueles que se sentem superiores, uma certe arrogância de querer ensinar e não se deixar aprender. Acho então que adolescentes podem sugerir seus próprios assuntos, livros, etc. Acredito que um senso comum entre o interesse dessas pessoas e a pedagogia em si seria o ideal.

    Sobre a censura de conteúdo impróprio… O que seria conteúdo impróprio para um adolescente, falar sobre sexo, quando na novela ou o seriado americano que ele assiste as pessoas (adolescentes inclusive) já fazem isso há muito tempo?? Ou mesmo violência, quando ele, desde criança ouve sobre guerras, vive em meio à violencia urbana, quiçá muito mais que muitos desses autores podem imaginar.

    Enfim, não se pode subestimar uma criança e/ou um adolescente. É preciso saber os interesses deles, os problemas e a realidade deles para se ensinar de verdade. Afinal eles são pessoas de verdade.

  6. Se nós tratarmos adolescentes como idiotas, eles continuarão a agir assim na idade adulta.

    Uma das professoras que mais me cativaram durante o ensino fundamental nos impunha alguns títulos que julgava obrigatórios mas deixava a escolha de outros a nosso cargo, e a partir desses livros tínhamos de produzir “fichas de leitura” – o que ora me dava prazer, e ora me aborrecia profundamente.

    Até hoje, por exemplo, não concluí a leitura de “Iracema”. Para produzir minha ficha de leitura relativa a esse romance, me fiei num resumo básico. Por outro lado, vivi experiências de leitura inesquecíveis, proporcionadas por livros como “As Aventuras de Tom Sawyer”, “O Cortiço”, “Memórias de um Sargento de Milícias”, “O Encontro Marcado”, “Feliz Ano Velho”, “Bufo & Spallanzani”, “Antes do Baile Verde”; devorei os best sellers de Jô Soares; cheguei a achar que Paulo Coelho era um grande escritor; topei com uma pedra chamada Carlos Drummond de Andrade no meio do caminho; bati papo com alguns dos melhores cronistas do país (Braga, Mendes Campos, Lessa); e só ao final do ensino médio logrei dar meu salto mais vertiginoso no que tange à linguagem literária, quando conheci a prosa de Guimarães Rosa.

    Enfim, falei um pouco sobre minha “formação” como leitor para só então me posicionar em relação a essa polêmica envolvendo as obras oferecidas aos alunos do ensino básico da rede pública. Acho isso uma grande bobagem, além de ser uma tremenda perda de tempo. Ora, para crianças menores de doze anos, convém “pegar leve” no conteúdo, o que não quer dizer que os livros ofertados devam ser chatos. Ao contrário: Tom Sawyer e Huckberry Finn são exemplos de romances infanto-juvenis excelentes e divertidíssimos. Do mesmo modo, existem livros cativantes – com ou sem palavrão – e inteligentes que são perfeitamente indicados aos adolescentes. Como bem afirmou Marcelo Mirisola em uma de suas crônicas recentes, há que se oferecer à molecada boa literatura capaz de “concorrer” com a Luiza Brunet e as outras boazudas que se exibem mensalmente nas revistas masculinas (restrinjo-me ao universo masculino, obviamente).

    Melhor oferecer um cardápio variado de boa literatura e deixar que os alunos escolham por si próprios. Mal comparando, devemos sim exigir a ingestão de frutas e hortaliças (os clássicos mais sisudos), mas não podemos privar as crianças de hambúrguer e batata frita (clássicos contemporâneos, literatura just for fun etc.).

    Nossas escolas não podem formar idiotas alienados e, pior ainda, com ojeriza à leitura.

  7. Acho que falta maturidade. Não aos jovens, mas à Secretaria de Educação!

    w.m.carvalho

  8. se a questao é censura, tirem gregorio de mattos e sua boca do inferno de qq conteúdo programático literario.
    a bonitinha de nelson rodrigues deve ser divulgada apenas pela televisao.
    e dalton trevisan, por favor, que fique com seus vampiros em curitiba.
    claro que a questao nao é o conteúdo, é a forma como é trabalhado.
    eu me lembro de cada um desses autores, que conheci na adolescencia. e me dá saudades da minha professora de literatura do colégio….
    nao conheco o livro de tezza. se a polemica é por seu conteúdo “improprio para adolescentes”, bem, seguramente vai ser mais lido que se nao existisse polemica.
    abracos

  9. Querem ensinar literatura ou doutrinar os alunos? Adolescentes assistem a cenas de sexo, em filmes e seriados, adolescentes fazem sexo, adolescentes usam e ouvem as “palavras de baixo calão” que foram encontradas no livro de Tezza. Querem protegê-los do que? O mais interessante seria que bons professores acompanhassem e orientassem essas leituras.

  10. Não consigo pensar num jeito de comentar isso sem soltar uns palavrões. Registro então a minha revolta com esse falso pudor. O Brasil é um país tão babaca. Abss. Eric.

  11. O mais engraçado e assutador de tudo isso é o silêncio da Sra. Beatriz Vieira.
    Põe logo essa molecada pra assistir Malhação.
    Ops, não pode.
    Tem beijo, sexo, gravidez na adolescência…
    Então, dá “A Mina de Ouro”. Literatura decente, bonitinha e vazia.
    E, concordo com o Eric.

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